22.9.05

Carta ao Pai

Ler o livro Carta ao Pai, de Franz Kafka dá uma outra dimensão à compreensão de sua obra e pensamento, no livro a intimidade do autor parece se desnudar sem que isso ocorra de forma vulgar ou desnecessária.Com precisão literária, digno de qualquer romance, Kafka escreve uma carta, que na verdade nunca foi entregue, cuja narrativa seria um acerto de contas com seu pai.Não é difícil verificar a influência que o pai teve na vida deste escritor, a força daquilo que Kafka considerava tirania e que certamente teve impacto crucial sobre sua personalidade.Interessante ver que, enquanto filho, Kafka observava aparentemente passivo mas com percepção aguçada as atitudes de seu pai, uma observação refinada e inteligente, mas de grande sofrimento.Através das críticas avassaladoras ao que Kafka considera desmandos do pai, constrói uma articulação de pensamento crítico e pesado, digno de um gênio, mas com a mágoa tão sentida, quase de um menino, que muitas vezes se iguala a de qualquer outra pessoa diante do amor não correspondido, expondo uma ferida aberta de anos e anos de revolta e no final, a força da indignação.Li O Processo antes de Carta ao Pai, hoje vejo todo o livro sob outro ângulo, nele percebo o quanto Kafka criticava quase a si mesmo, falando na verdade de uma auto recriminação diante da passividade frente a um oponente contra o qual não tinha força interna para lutar.Penso que, de alguma forma, no livro O Processo, ele estava falando de um sentimento que quase nunca conseguimos escapar, a culpa, só ela tem força para nos tornar algoz de nós mesmos, a ponto de não questionarmos nossas penas, nossas punições.Não é difícil perceber que todos estes ingredientes contidos no livro foram vividos na relação com um pai castrador que o impedia de se tornar um homem maduro para enfrentar a vida adulta (Kafka não conseguiu casar).É nítida a tristeza da falta de um referencial que ele pudesse considerar digno de ser imitado, com certeza o pai, amado e odiado ao mesmo tempo, não conseguiu ser uma referência masculina para ele, talvez por considerar sua tirania contraditória e sem sentido.A ambigüidade de sentimentos permeia toda a carta e vai se tornando quase um encontro com nossos próprios sentimentos diante do objeto amado quando não correspondido, a expectativa de algo que não foi como o esperado.Enfim, Carta ao Pai é um acerto de contas histórico que nos faz retornar aos nosso acertos parentais e individuais, ao questionamento de nossas relações primitivas e atuais.Kafka com sua mágoa particular nos faz refletir e entender um pouco mais sobre sua subjetividade e por conseqüência sua obra.Em uma simples carta pessoal, sem nenhum intuito literário, consegue ser genial, imortal e sempre atual.Um presente literário que enternece o coração, mas também inquieta.Fácil de ler, difícil de esquecer.

1.9.05

Politéia, Política, Putaria e Democracia

Por Nílbio Thé

Homossexuais, transexuais, bissexuais e travestis não se cansam de lutar pelos seus direitos civis (e por que não, os militares também?). E nem devem se cansar de fazê-lo, não é verdade? Afinal vivemos numa democracia, e numa democracia todos temos (ou deveríamos ter) direitos iguais, certo?

Não. Errado. Ao menos de acordo com Aristóteles.

Segundo Aristóteles existem basicamente três categorias “boas” de governo; a monarquia (onde só um governa tendo o poder concentrado em suas mãos), a aristocracia (onde poucas pessoas governam e um pequeno grupo de pessoas detém o poder político) e a politéia (o governo de muitos, onde muitas pessoas têm o poder político). São formas boas de governo porque não estão corrompidas, estão em seu estado, digamos, “puro”, livre da corrupção e da opressão. No entanto, ainda segundo o grego velho, todas as três formas político-administrativas podem sucumbir ante a ganância do poder. A partir daí, então, elas ganham novos nomes.

A monarquia em sua versão deturpada se transforma em tirania, já a aristocracia em oligarquia e, a politéia, pasmem, vira democracia, ou, a ditadura da maioria. Puxa vida... Mas logo com esse nome... Democracia!

Aristóteles não se enganou, posto que foi ele quem criou tais categorias. Nós é que nos enganamos por todo esse tempo. Ou alguém enganou a gente.

E pensar que ultimamente, nesse período fértil em que CPI’s e acusações florescem por todos os lados, escutamos vozes na tv e no rádio falando, como que com o orgulho ferido, que “sou democrata”, “vivemos numa democracia”, “nossa eleição foi importante para a consolidação do processo democrático” ou ainda nos filmes de um determinado país da América do norte: ”vivemos num país livre!” Qual a forma de governo lá mesmo? Ah!, é democracia também? Tá, deixa pra lá...

Mas o que eu ia falar mesmo é sobre a relação entre o sexo e a política. Mais precisamente, da opção sexual e suas conseqüências na versão negativa da politéia (parece até que estamos falando do mundo bizarro ou de algum monstro de anti-matéria!), ou seja, a democracia (será que evito essa palavra agora?). Vamos ver ser conseguimos deixar a prolixidade de lado e vamos direto ao ponto.

A democracia é a ditadura da maioria. E não uma forma política que dá voz a todo mundo. As pessoas no Brasil não sabem fazer política e, sobretudo, falar de política, um defeito tão grande quanto, quase. Quando alguém diz que devemos dar voz aos desfavorecidos porque são minoria e eles têm direito a ter voz pois vivemos numa democracia, estamos escutando, na verdade, uma balela idiota e sem tamanho. Ao menos segundo Aristóteles, Democracia é assim mesmo, é pau nas minorias.

Isso inclui grupos como os homossexuais, certos grupos religiosos e quem mais não possuir maioria numérica (claro, estamos simplificando um pouco as coisas). Será por isso que as minorias sofrem tanto para ter direitos reconhecidos? Os homossexuais de casar, os judeus e os adventistas do sétimo dia de terem o sábado respeitado como feriado ao invés do domingo, etc e tal.

Vivemos numa ditadura onde a maioria impõe as regras e oprime as minorias. E o pior é que crescemos achando isso certo, já que a vontade da maioria deve ser a conduta final, posto que é impossível agradar a gregos e troianos.

Mas partindo do pressuposto que mesmo salvaguardando os direitos das minorias nós não estaremos agradando a todos. Sempre haverão aqueles conservadores ferrenhos que querem impor sua vontade aos outros seres do planeta. Mas esse não é o verdadeiro sentido de se viver numa politéia.
Viver numa politéia, então, é mais “democrático” que numa democracia.

Irônico não? Talvez. Mas talvez também seja a solução para termos os direitos dos homossexuais, transgêneros e todas aquelas letras da nova sigla Gltb (Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais –aliás, o termo “gay” serve para homens e mulheres, por que será que ainda tem o “lésbicas” na sigla?) garantidos.

Bom, enquanto ninguém faz anda (ou melhor, enquanto a maioria não faz nada) proponho, ao menos, instauração de uma nova palavra no vocabulário informal do brasileiro: a politéia! E aproveito para dizer: cuidado com essas pessoas que se dizem democráticas, as eleições estão chegando!

28.8.05

Momento de abstração reflexiva

Sinto-me mal por remover o texto da Patrícia da capa para justamente abordar a monotonia e a irrelevância de produzir a Esfera Pública como uma atividade solo, com raras contribuições de outros, tal como os textos da Karolyne e da Patrícia ou a autorização para publicação aqui dos textos do Maurício Santoro.

Estou nesse momento revendo a praxis no blog, em um movimento de abstração reflexiva sobre o projeto de revista, que lhe dá sentido. Estou estudando um bucado, mas um texto me chamou muita atenção, de fato me pareceu espécie de colírio alucinógino, não sei se em bom ou mau sentido, em todo caso, se tiver um tempinho, dá uma olhada no texto e me dia, mesmo que de forma curta, o que pensa sobre o que há escrito nele.

23.8.05

Preparação para o novo salto

A Esfera Pública está se preparando para um novo salto, desta vez um salto coletivo, que há de representar algo de bom na Internet ou, ao menos, na minha vida.

Quando o fale conosco fala

A Elenara publicou a íntegra de um fale conosco, o que merece algum destaque. Tá, não adianta todo mundo fazer isso, que nem tem graça, afinal todo mundo pode abrir seu próprio blog, mas hoje é dia de festa aqui na Esfera Pública.

Estou com o Gejfin

Palocci realmente se garantiu. Fez o que Lula não fez, mas já deveria ter feito, mas ainda não fez o que Duda Mendonça fez e que Lula já deveria ter feito também. Estou com o Gegfin.

Malvados sinistros

Os malvados hoje escondem algo de sinistro, ou de épico.

Patife

Fui Beretear e descobri a ótima sugestão do Tiago Casagrande, o site do Patife, embora tenha que reconhecer que seu texto vale a pena ser indicado por si só. Então não deixe de conferir...

Google um Oráculo para a verdadeira Bíblia

A partir do comentário do jornalista Paulo Bicareto em seu Alfarrabio, faz-se necessário afirmar que não apenas o Google é um oráculo, como a web é hoje a grande materialização daquilo que pode ser considerado uma verdadeira Bíblia, inclusive por que deve conter versões eletrônicas da própria Biblia cristã. Fato é que certamente a web é a maior coleção de textos, comunicaçãos e imagens reunidas em toda a história da humanidade. É, sem sombra de dúvida, a verdadeira palavra de deus, estou certo de que o é inclusive na perspectiva de qualquer teólogo sério.

19.8.05

Percebendo o mundo a partir dos blogues alheios

O exército israelense está combatendo a resistência na Faixa de Gaza, após o encerramento do prazo legal para a saída de todos os colonos. A retirada dos colonos da Faixa de Gaza é, sem dúvida, um grande passo de Israel em direção à paz na região.

É um evento de grande importância para o mundo, talvez sem o espaço merecido no noticiário brasileiro, monopolizado pela crise política nacional. Além da política, o assalto à sede do Banco Central em Fortaleza disputa a atenção da população.

Os grandes temas acabam sendo abordados também por inúmeros blogues, o que nos permite ter acesso a diferentes opiniões, a diferentes metodologias de análise e também o acesso à expressão de observadores privilegiados, tais como jornalistas em plena Faixa de Gaza ou o Cristóvam Buarque.

Os blogues também permitem normalmente o comentário de seus leitores, o que traz ainda mais pluralidade na informação, uma vez que as informações e análises são avaliadas pelos leitores, que também trazem sua própria bagagem de informação e valores.

Uma dúvida resta, será que a percepeção dos leitores sobre a credibilidade dos blogues é diferenciada em relação a sua percepção sobre a credibilidade dos portais? Qual será essa diferença?

17.8.05

Heloísa Helena 2028

Há cerca de 20 anos o MDB representava a esperança, representava o futuro do Brasil, quando todas as apostas eram depositadas na "redemocratização". O MDB virou PMDB, que virou uma grande máquina eleitoral, um partido fisiologista.

É compreensivel que, tendo à frente um grande inimigo comum se aglutinem as mais diversas forças em uma oposição para o enfrentar e que, caído o inimigo o guarda-chuva perca sua carga ideológica e ocorra a desarticulação de suas forças.

Deve-se considerar também que MDB e Arena eram as únicas legendas permitidas durante a ditadura e, por conseguinte, as pequenas oligarquias municipais adotavam uma ou outra, quase aleatoriamente, para enfrentar seus inimigos locais, sem qualquer compromisso ideológico com a legenda nacional.

O PT também une sob seus guarda chuva um leque variado de forças, que também têm um inimigo comum, o político tradicional, as oligarquias que dominam o Estado. O PT nasce como alternativa ao fisiologismo no Brasil.

Constrói ao longo de 20 anos uma imagem fundada na ética, no compromisso com a democracia, com a honestidade e na participação popular para a admistração pública, representa a alternativa de mudança na forma de fazer política.

Lula então chega ao poder e, como uma sina, repete a história do líder polonês do Solidariedade, tão criticado pelo próprio PT e pelo próprio Lula. Chega ao poder através dos mesmos instrumentos que sempre criticou e condenou.

Faz política do mesmo jeito de sempre, chega ao poder como sempre, governa como sempre se governou, esquece a ética, a democracia, a honestidade e, principalmente, a participação popular. Opta, finalmente, pelo fisiologismo e pelo populismo.

O PT se esvazia 20 anos depois do PMDB se esvaziar, praticamente da mesma forma e provocando sentimento equivalente de frustração entre os brasileiros, que mais uma vez vêem suas esperanças de transformação se esvairem pelo ralo.

Agora, o PT também deve sofrer grandes perdas em seus quadros, assim como o PMDB. Ficam no partido os já assumidamente fisiológicos e aqueles que se vêem como dissidência, os quais lutaram entre si por mais 20 anos, assim como no PMDB até hoje.

Muito se fala no PSol como a nova alternativa, talvez com possibilidade de chegar ao poder também em 20 anos e o marco será a primeira mulher, nordestina tinhosa e destemida, a Maria Bonita do Parlamento.

Duvidaram do operário metalúrgico, migrante nordestino, que enfrentou ao mesmo tempo as corporações transnacionais e a ditadura. A ditadura se acabou, diz-se que por sua própria conta e erro, mas não se pode negar a importância do movimento operário.

As corporações transnacionais estão mais fortes e mais poderosas do que nunca, hoje os operários tem, provavelmente, menos força que tiveram na época que Lula era seu lider. É possível que os tempos sejam mesmo outros.

Lula é hoje símbolo de corrupção e está sendo julgado por aqueles que jamais conseguiu condenar pelos crimes que comete para chegar ao poder. Lula também se acabou e pode se dizer que também por sua própria conta e erro.

Antes se maldizia a morte de Tancredo, agora não se tem qualquer desculpa. Heloísa Helena daqui mais 20 anos?

16.8.05

O fascismo mora ao lado

O PT é tão útil ao establishment que é difícil acreditar que o governo Lula tenha terminado tal qual parece. Não que o PSDB não o seja, mas o PT tem, ou tinha, a vantagem de reforçar como nenhum outro partido a ilusão da democracia.

Há como se olhar para a toda a crise e encontrar uma grande vantagem com o otimismo de que se trata de um grande aprendizado coletivo, de maior envolvimento popular com a coisa pública, talvez até da descrença na representação.

A trajetória republicana do Brasil, entretanto, está repleta de ditaduras. Mal-sucedidas, que ao final prejudicaram a todos, inclusive às elites. Da última, herdamos o grande desafio da crise fiscal, necessária à manutenção do regime em seus últimos anos.

A grande possibilidade é que se encontre uma forma de contemporizar a situação, de amenizar o espetáculo e evitar uma crise de maiores proporções enquanto se minam as possibilidades de hegemonia do PT nas próximas eleições.

Um processo de impedimento tornaria Lula uma espécie de mártir, uma manobra arriscada, da qual se pode até vislumbrar o estabelecimento de um regime de fato, mas a questão é que o único nome forte é o próprio Lula, ainda capaz de aglutinar apoio popular.

Ainda há a recorrente e angustiante idolatria a Getúlio Vargas. Nenhum presidente foi tão noscivo às lutas populares e ao trabalhador quanto ele, mas parece que no Brasil todo político sonha em ser Getúlio, políticos de todos os naipes, talvez em busca de capitalizar o eleitorado fascista brasileiro, talvez até Lula.

É difícil creditar seriedade a qualquer possibilidade de golpe, apesar do recente aumento dos soldos depois da chantagem semi-declarada de reformados, que demonstrou fraqueza do governo. Sempre se reafirma a solidez das instituições democráticas.

Espera-se que as instituições democráticas sejam mais sólidas que o PT, até então um símbolo de sustentação dessas instituições, mas diante de tudo isso o que se pode fazer para garantir um futuro melhor para nossos filhos?

13.8.05


Viva os malvados! Perfeitos! Maravilhosos! Posted by Picasa

Lula versus Duda

Duda Mendonça é um homem de comunicação, um homem pragmático de comunicação, um homem brilhante, um excelente propagandista, alguém que não acredita na teoria da bala mágica da escola funcionalista clássica estadunidense.

A escola funcionalista é a base para a propaganda política contemporânea, que se iniciou com a perspectiva da bala mágica, que superestimava o poder da propaganda na guerra, considerando que a mensagem dos media seria absorvida pelas massas.

Lula é um político, também um homem pragmático da política, também um homem brilhante, mas é menos competente como propagandista que Duda, isso explica por que Lula só chegou à presidência quando contratou Duda. Lula, ao que parece, acredita na teoria hipodérmica, da escola de Frankfurt (Alemanha).

A teoria hipodérmica é, simplificando-se as coisas, similar à teoria da bala mágica, seu nome se deve à metáfora usada para explicar a ação da propaganda, que, também superestimando o poder dos media, acreditava na injeção subcutânea das mensagens, daí hipodérmica.

Duda quando se pronunciou à nação, uma vez que os depoimentos nas CPI estão sendo transmitidos ao vivo em cadeia nacional, sabia que não bastava falar qualquer coisa, nem para os deputados, nem para a população, era preciso falar algo crível e, para isso, teria que se comprometer severamente, dada a gravidade da crise.

De forma alguma se pode pressupor que Duda tenha falado a verdade, apenas a verdade e, principalmente, toda a verdade. Duda não nasceu ontem, certamente não entregou tudo, certamente apresentou uma narrativa favorável a si.

Duda fez o depoimento com base nos princípios que, provavelmente, sugeriria que o presidente também o fizesse, pois o que se destaca em seu pronunciamento é que ele parece falar a verdade, os congressistas demonstram acreditar naquelas verdades e a população levou para dentro de suas casas a sensação de que aquela era a verdade.

Lula, por outro lado, deixou de incluir em seu discurso, em seu mea culpa, os elementos necessários a transmitir credibilidade ao seu discurso, não se comprometeu em nada, esquivou-se de todas as acusações e não trouxe nada de novo.

Não falou nem ao povo, nem às elites, nem ao PT e nem ao Congresso. Lula em seu pronunciamento deveria falar ao povo, aos demais se entende que a informação é privilegiada, que têm canal especial, que avaliam a importância do pronunciamento em seu reflexo junto ao povo.

Talvez o presidente deveria ter usado o Câmara dos Deputados para fazer seu pronunciamento à nação, afinal o Congresso é a “casa do povo” e nesse momento, o povo está “dentro” do Congresso, ou é a sensação que possui com a TV Senado.

Se Lula recorresse hoje a Duda Mendonça, ou outro propagandista competente como é Duda, poderia estancar a crise, bastaria “imitar” Duda, falar ao povo de forma crível, ao povo que lhe daria sustentação para concluir o mandato e se reeleger até.

O Presidente da República, entretanto, joga o jogo que lhe é “sugerido” pela oposição, finge que sofre a ação de um golpe das elites brasileiras e trata o povo como massa amorfa, como se seus propagandistas ainda estivessem lendo os clássicos da literatura sobre mass media.

O governo Lula é bom para as elites, funciona como uma válvula que dá vazão à pressão por transformação e, portanto, evita uma “explosão”. As elites não desejam isso, embora provavelmente se sintam mais confortáveis com um FHC do que com um Lula, mas Lula está se comportando muito bem.

Embora a eventual queda de Lula enfraqueça o movimento organizado de esquerda, também mina as ilusões da população na democracia e isso abre muitos caminhos, nem todos felizes para as elites, o ideal para as elites seria manter a situação atual: crescimento econômico favorável e movimentos sociais em simbiose com o Estado.

A situação atual em muito remete a Getúlio Vargas, em especial à criação do Ministério do Trabalho, da Carteira de Trabálho, da vinculação dos sindicatos ao Estado, do controle de Estado sobre os movimentos operários, do esvaziamento do confronto a partir da militância chapa branca.

Quem também poderia ajudar Lula, talvez sem nem querer, é o PSol, que propõe a realização de um plebiscito para decidir a permanência ou não de Lula até o final do mandato, essa é a solução ideal, uma válvula típica do parlamentarismo, que debelaria a crise em uma saída ou em outra.

Se Lula adotasse o “conselho” de Duda, o plebiscito proveria a formalização do apoio popular conquistado, que seria conquistado através de um discurso crível, fundado na verdade, mesmo que não composto apenas pela verdade e nem contemplasse toda a verdade.

Se Lula continuar jogando o jogo da oposição as elites devem sim se inquietar com sua falta de habilidade para gerenciar a crise e devem pressionar para que renuncie, ou iniciar processo de impedimento do Presidente, solução que não agrada a quase ninguém.

Lula, talvez, nutra a expectativa secreta de se tornar um novo Getúlio, mas mesmo para isso, tem de aprender um pouco sobre propaganda com o Duda. É preciso lembrar que Getúlio usava o Rádio através de seu Departamento de Informação e Propaganda de maneira similar ao espírito nazi-fascista da Europa.

Lula não deve ser considerado fascista ou nazista, mas houve uma limpeza geral da lembrança da população sobre Getúlio, que hoje é venerado pelas mais diferentes correntes políticas brasileiras, é quase uma unanimidade, esqueceu-se quase todas as atrocidades, especialmente contra o operariado urbano, em seu governo.

Nota: O autor se recusa a utilizar o termo marketeiro, derivado da expressão tosca marketing político. O que Duda Mendonça faz é propaganda política, talvez uma forma renovada de propaganda, com maior profissionalismo que outrora no Brasil, mas é propaganda. A principal razão para a recusa do termo marketeiro é que, derivado de market, iguala política a mercado, cidadãos a consumidores.

12.8.05

Que democracia pode verdadeiramente transformar o status quo?

Plínio Sampaio, outrora um dos principais intelectuais do PT, afirmou ao Jornal da Cidade, de Bauru (SP), que "o Lula é mais benevolente com o sistema financeiro que o governo anterior", mas detacou que acredita numa diferença substancial.

Para ele há uma diferença de princípios, pois o governo FHC "acreditava nisso", enquanto o governo atual teme romper com o esquema existente e "criar uma situação que possa afetar o povo".

Plínio é candidato à presidência do PT pela Ação Popular Socialista, espécie de esquerda interna do PT, e defende a organização e a mobilização dos movimentos sociais a partir de suas convergências e não de suas divergências.

O candidato defende que o PT chegou ao governo, mas não ao poder e que o governo Lula é, na verdade, uma ilusão, um símbolo construído a partir de lutas verdadeiras, nascidas na década de 70, mas que abandona a organicidade popular para vencer às eleições.

Será possível o PT se reconstruir a partir do depoimento de hoje do propagandista ( resistência pessoal do autor ao termo 'marketeiro', que rejeita corroborar que política seja mercado) Duda Mendonça mesmo que seja eleito em setembro uma cúpula de esquerda?

Como firaria o governo Lula se fosse formada uma cúpula de esquerda em seu partido, principal partido da situação, uma vez que no Congresso a destruição dos quadros pelos erros do passado e do presente impressiona?

Plínio Sampaio tem, nesse momento, uma atitude quase heróica ao se candidatar à presidencia do PT, tamanha a ousadia de pensar reunir novamente a diversidade que formou o partido no passado e que foi esfacelada pela ditadura da maioria, o "Campo Majoritário" e a "Articulação".

Qualquer que seja o novo PT, ou que novo partido passe a representar os anseios dos trabalhadores e da povo brasileiro, é importante que se aprenda com os atuais erros do PT, não apenas com os síntomas, mas com suas verdadeiras origens.

Que democracia pode verdadeiramente transformar o status quo?

11.8.05

Depoimento do Duda Mendonça hoje!


Posted by Picasa

Rigor

A ânsia para tocar fogo na casa, para vingar a honra dos "políticos honestos" ou simplesmente para saciar o desejo da população por noticias quentes acaba por extremar a ausência de rigor no exercício profissional de jornalistas, de policiais, de parlamentares e certamente de outros profissionais.

Informações distorcidas grosseiramente, acusações apresentadas como fatos mesmo sem terem sido checadas, aproximações indevidas entre investigado e investigador e muito mais contribuem para uma imensa confusão sem perspectiva de solução.

Ao se observar um único dia em detalhes a crise política pode se perceber que não há outra saída senão que acabe em pizza, pois há muito estardalhaço e pouco fundamento e, mesmo, pouco rigor investigativo.

De um lado o inquérito no qual tomam parte deputados e senadores, que se armam do que é veiculado na imprensa, ao que é atribuído considerável valor de verdade. De outro a imprensa que se aproveita do que é dito em prenário enquanto afirmação oficial.

Suprimem-se alguns apostos na espiral da construção do discurso e especulações e acusações se transformam em fatos que se legitimam pela repetição e não pela comprovação, algo que lembra a constituição acionária das empresas do Chatô, em que uma era dona da outra em cascata até que a última era dona da primeira, finalizando uma estrutura circular.

A CPI pode até não acabar em pizza, mas a sensação para a população será, inevitavelmente essa, apesar da grande heroína, a TV Senado, pois o descuido e a falta de rigor profissional em quase todas as etapas dessa investigação, incluindo a mídia, estão valorizando demais testemunhos e indicios, quando será preciso provas documentais substanciais, que até o presente momento não aparecenram.

10.8.05

O poder ou o poderoso

Ficam declarados sujos todos os partidos do Brasil. Se algum ainda não é comprovadamente sujo, só pode ser por um motivo: é novo "ainda na caixa". Isso por um motivo simples: qualquer partido de qualquer lugar do mundo é sujo.

Roberto Jefferson, o grande trapalhão, está ensinando isso às nossas crianças, pois é evidente que o PT não sai inteiro da lama em que está atolado e, principalmente, não sai íntegro. Acontece que o PT funcionva como ilusão necessaria à manutenção da democracia representativa.

O PT era o elemento necessário à credibilidade das instituições. O PT caiu no mar de lama, o PT é um partido como todos os outros, não há partido honesto, não há político que trabalhe pelo interesse da nação.

A questão é que não é relevante derrubar o Lula, pois o próximo presidente fará a mesma coisa, independente de agir pessoalmente ou não, a única coisa que é certa é que tera aprendido com os governos anteriores, vai corromper e ser corrompido com precaução ampliada.

O parlamentarismo, nete caso, parece um elemento adequado à retomada da ilusão necessária que falta hoje à democracia. É certo que dissolver o congresso e convocar eleições gerais agora seria perfeito para renovar a esperança, seja ela vermelha, rosa ou da cor que for.

É certo, porém, que seria tanto quanto hoje, uma forma de renovar e manter a estrutura existente, aquilo que faz com que a corrupção se mantenha, que o tráfico de influência se mantenha, que o poder de quem manda seja exercido.

É difícil saber o que seria melhor ou pior para o Brasil, manter o presidencialismo e ir desgastando a democracia mais e mais a cada geração que chega às eleições, tentar uma solução parlamentarista, que debelaria de forma menos traumática crises como essa, que não se arrastariam indefinidamente.

José Dirceu, primeiro-ministro de fato, caiu, mas não caiu todo o ministério, não foi dissolvido o Congresso, então a crise é mantida em fogo alto, quando poderia ser colocada em fogo brando, fôssemos parlamentaristas.

Essa não é, contudo, a única reforma possível, há outras, algumas mais ousadas, outras menos, mas é preciso reformar, é preciso mudar a estrutura que favorece a corrupção e não apenas substituir os corrúptos.

Pode não haver fórmula perfeita, mas é preciso se diferenciar como um recurso para que se possa permanecer em repetição. É preciso mudar para renovar a ilusão, para renovar a esperança. É preciso acreditar que a corrupção possa diminuir.

9.8.05

Retomando a resistência

No Brasil, fortemente motivado pelas últimos escândalos, já se percebem manifestações públicas de absoluta descrença nessa democracia em que a população tão somente tem o direito de ratificar a decisão das elites hegemônicas.

Recentemente, uma senhora de classe média, administradora de uma pequena empresa familiar, admirava-se que em um ônibus, uma outra senhora, pobre, discursava para a platéia em trânsito sobre a importância dos brasileiros boicotarem as próximas eleições.

O desenrolar da democracia no Brasil não mostra os resultados esperados pela população. Nem no Brasil, nem no restante da América Latina. Após as ditaduras militares a população espera que as liberdades políticas e sociais e o respeito aos direitos humanos se concretizem e sejam acompanhados de redução na desigualdade social e econômica.

O que se assiste no Brasil é um faz-de-conta democrático, onde a população é desrespeitada impunemente pela classe política, pelo governo e pelas empresas, sem saber ao certo como se defender.

Não é tão diferente do que acontece no restante da América Latina, observada atentamente pelos vizinhos do Norte, que agora já não possuem o grande inimigo comum do comunismo, não há mais ninguém para comer criancinhas e o MST não assusta tanto as senhoras da pequena burguesia urbana.

O México, a Venezuéla, a Colômbia e a Bolívia vivem em constante tensão. São países em que existem grupos de resistência armados, preparados para a luta e, em alguns casos, cujos líderes contam com possibilidades reais de vencerem as próximas eleições, outros, como os Zapatistas, no México, propõe a reforma do sistema político de seu país.

Há cerca de meio século movimentos assim começavam a ganhar força na maioria dos países da América Latina, mas os Estados Unidos conseguiram agir pró-ativamente, como eles denominam a ação da CIA, e implantar ditaduras em quase todos os países, mas havia o grande inimigo que era o comunismo, que hoje não assusta mais nem criancinha.

O futuro promete...

Palestra sobre inclusão escolar e a experiência espanhola na Faced/UFC

O programa de pós-graduaçao em educaçao brasileira da Faculdade de Educação (Faced) da Universidade Federal do Ceará (UFC) promove dia 16 de agosto de 2005 a palestra "Inclusão escolar: práticas pedagógicas e formação de professores a partir do modelo espanhol" com o professor doutor Delfín Montero Centeno, professor titular do Departamento de Psicopedagogia da Universidade de Deusto, Bilbao, Espanha.

O professor Delfin, que é diretor do programa de pós-graduação em Educação Especial, audição e linguagem e coordenador do serviço de orientação universitária da Universidade de Deusto, vem à Fortaleza para participar do seminário "Pesquisa e Diversidade", que ocorrerá do dia 10 ao dia 17 de agosto na Faced/UFC e incluirá, além da palestra aberta ao público, debates sobre pesquisa e ensino com os participantes do Nudelec/Faced/UFC.

Dia 16 de agosto, às 14h30, no auditório da Biblioteca de Humanidades. A entrada é franca.

Para mais informações basta deixar um comentário.