26.8.05

Folhetins do Exílio

Era como daqui até Canindé. A fila que tinha lá na praça, naquela manhã que cheguei para atender no Salitre. Não, não era fila para o atendimento médico. Mas estava cheia de velhos, mulheres grávidas e crianças. Alguns ainda assim tossindo, outros com febre. Mas todos estavam lá.

O Telefone já era azul quando chegou no Salitre. Nem imaginaram que um dia havia sido Amarelo-queimado; eu me lembro bem dessa cor, que parecia mais que o Orelhão estava pegando fogo. E as crianças costumavam gritar e alardear a vizinhança: - há uma orelha pegando fogo. Socorro!!!. Era só travessura de menino, e eles costumavam apontar pro Orelhão. E o povo voltava a assistir suas novelas. “-deixe estar, um dia esses meninos me pagam”, falava à viúva que morava na casa povoada de fantasmas.

O Orelhão do Salitre já era de Cartão. Com código de barras. Algo de computador. Coisa do demônio, dizia a obreira da Igreja. O dono da venda, seu Pebinha, não acreditava que o Telefone falava não. “- Imagina, que um bicho desse de ferro, no mei-de-uma praça, levando chuva e sol, sem comer, sem beber, vai lá falar comigo?? Esse povo ta ficando é doido”. Lamentava todos os dias. (bem, as cartas do povoado eram enviadas por ele, R$ 0,50 centavos, para seu filho- que tinha até a 4ª série- escrever e depois mandar pra qualquer destino. Qualquer destino! Ouviram bem. Mesmo que não fosse o próprio destino!).

Mas lá não vendia Cartão, porque era muito expendioso. Nem seu Pebinha teve coragem de comprar pra revenda. Mas só o Telefone ali já servia. Já importava.

Todo dia o povo ficava lá. As mulheres tomavam banho, vestiam a melhor roupa, passavam batom para ficar em frente ao Orelhão. Alguns homens ficavam a olhar o Gancho do telefone, os meninos botavam umas pedras no chão até a altura que desse para ficarem apertando os botões só-por-apertar. Mais nada. Algumas mulheres grávidas costumavam pegar sombra embaixo do Orelhão. “- Sombra melhor que aquela não existia”. Diziam.

À noite, o marmanjão ficava andando de bicicleta ao redor do Orelhão, dando voltas e mais voltas até girar bem muito. Ficar tonto, e cair. E no outro dia ir ao Posto se consultar comigo pela “queda que levou”. Isso se repetia sempre.

Os pais costumavam fazer piquenique à boca da noite próximo ao Orelhão. Compravam refrigerantes, pães, botavam a toalha, sentavam com seus Filhos. E ficavam lá. A cada gole de refrigerante e mordida no pão, contemplavam mais e mais o Telefone.

Até que um dia um caminhão com um guincho chegou lá no Salitre. Meio-dia. Arrancou o bicho. E levou.
A Empresa resolveu tirar o Telefone de lá. Não servia pra nada. Pra quê?? Um mês, e nenhuma chamada de ida ou de vinda ou até a cobrar mesmo. Inútil. Só gastar o Telefone e enferrujar??. Melhor levar para onde se precisa. Para um Shopping na Capital, não??

E o Telefone foi embora. O povo se despediu cantando, com flores, uma salva de palmas e um minuto de silêncio.

No outro dia que o Orelhão foi embora, era como daqui até Canindé. A fila que tinha lá na praça, naquela manhã que cheguei para atender no Salitre. Estava cheia de velhos, mulheres grávidas e crianças. Alguns ainda assim tossindo, outros com febre. Mas todos estavam lá.

As consultas aumentaram em proporções geométricas.

Alguns ficaram surdos. Outros não falavam mais. As mulheres da sombra estavam com insolação. As crianças estavam apáticas. E seus pais voltaram a toda noite esquecerem delas e só irem namorar com suas mães. E tome eu prescrever Amitriptilina, Fluoxetina, Haloperidol pras pessoas do povoado.

Só seu Pebinha está alegre.

Mas o marmanjão continua ainda a ficar andando de bicicleta, dando voltas e mais voltas, hoje voltas em torno do próprio círculo, em torno dele mesmo. Até girar bem muito. Ficar tonto, e cair. E no outro dia ir ao Posto se consultar comigo pela “queda que levou”.

3 comentários:

  1. Oba! Um movimento de greve sempre pode surtir efeitos positivos!

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  2. Muito bom o texto, muito bom mesmo!

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  3. Muito Obrigada pelos elogios!!! Quanto a greve, é que eu nunca tenho mais tempo de acessar a internet, mas quando dá eu entro logo no nosso blog, pra me atualizar!!!! Beijões a todos!!! E ainda acho que devemos marcar um encontro nosso!!!

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